sábado, 9 de março de 2013

Rio de Janeiro, 4 de julho de 2010

Rio de Janeiro, 4 de julho de 2010 E mais um grande espaço de tempo sem escrever por aqui, dessa vez posso usar a desculpa da falta de tempo, o que não me pareceria muito adequado nem verdadeiro. Prefiro usar a realidade de que a vida nos consome de uma tal forma em determinados momentos, que esquecemos das coisas mais prazerosas para nos sufocarmos com problemas que são jogados em nós. Muita coisa aconteceu, novos trabalhos, novos amores, novas perdas, novas decepções, novos aprendizados. Nesse tempo pude parar para pensar em uma frase que dizem por aí “não faça com os outros o que não quer que façam com você.” Eu não sei porque também não dizem “não faça com os outros a mesma coisa que fizeram com você”. Não sei o porque, que nessa nossa sociedade temos que estipular padrões do que é certo e errado. Um padrão para o que é bom, outro para o que é ruim, para o que é cinismo, o que é falsidade. As palavras tem nelas mesmas definições, mas a forma como elas são utilizadas não estabelecem um padrão de comportamento. Se eu usar a primeira frase de não fazer o que não quero que façam comigo, por vezes deixarei de usar a minha individualidade ou vou sobrepuja-la por uma convenção¿ Um exemplo simples: Eu não quero que ninguém me dê um soco, mas se alguém merecer darei na pessoa com um prazer imenso! Não vou deixar de dar um soco apenas porque não quero tomar um. Podemos entrar em outro mérito, o de não “querer” ou não “merecer”. Pode ser que eu não queira levar um soco, mas talvez eu mereça, ou eu não mereça e leve um soco. Outra questão muito relativa. O que é “merecer”¿ Acho que na nossa sociedade, e em outras, essa palavra está mais pendendo para o lado do castigo, da punição. Eu roubei¿ Mereço ser preso.Magoei alguém¿ Mereço que me magoem. Ou o inverso total, o merecimento pode ser um prêmio! Eu trabalhei muito, mereço ser rico. Tudo volta a ser absurdamente relativo! Se eu roubei pra alimentar meus filhos mereço ser punida¿ Se magoei alguém inconscientemente, porque sou um ser humano único e com falhas, mereço ser punida¿ Se eu trabalho muito mereço ser mais rica do que alguém que jogou na loteria¿ Será que ele não “merece”¿ Merecimento é algo pessoal, individual, o meu conceito é diferente do seu, então a questão é “não faça com os outros o que fizeram com você apenas porque ele merece, porque é assim que se aje”. Voltemos ao exemplo anterior: Se alguém me der um soco, eu não tenho que retribuir porque é isso que a sociedade espera que eu faça, eu se eu achar que mereço¿(voltamos a questão do merecimento) Se eu quiser “retribuir” o soco, tem que ser por uma análise individual minha, e não por influência do que é certo ou errado que me foi imposto durante anos. O contrário também é correto. Se eu acreditar em Cristo eu devo dar a outra face apenas porque a minha religião diz, e a sociedade que eu vivo na Igreja me diz isso¿ Se eu quiser imensamente revidar, achar que isso é o correto, serei criticada pelos meus pares¿ É mais uma vez a sociedade influenciando nosso comportamento, nossas frases, nossas atitudes com algo que não lhe cabe. Nossa individualidade se sobressai, nosso conceito de certo e errado é o que é válido, assim como qualquer consequencia que venhamos arcar com nossos atos caíra sobre nós, pessoas, indivíduos. Existem algumas exceções, em que as consequencias dos nossos atos podem causar danos em outras pessoas, mas isso é assunto pra outro dia, porque agora preciso de um bom sono!

Rio de Janeiro, 25 de abril de 2003.

Rio de Janeiro, 25 de abril de 2003. To acabada, são quase três horas da tarde e acabei de acordar. Fui a uma dessas festas dos jovens de hoje e quase morri (modo de dizer). Mas foi ótimo, vi tantas coisas diferentes e ao mesmo tempo parecidas, que fiquei assustada ao ver que o tempo parece não passar, apenas mudam as circunstâncias. Parece que quando somos jovens a realidade assusta, e sempre procuramos algo que nos faça fugir pelo menos por alguns instantes dela. Isso pode ser através do álcool, das drogas ou de alguma outra coisa que nos tire as funções e reações que achamos “normais”. A diferença é o modo como isso vem sendo utilizado através das décadas. Quando vejo as festas dos anos 60 e 70 na T.V, me parece que aqueles jovens queriam sair do controle talvez para ter coragem de protestar, de mostrar indignação, e talvez tentar ter coragem para se fazer ouvido e tentar mudar um pouco as imposições que lhe eram feitas pela sociedade. Na minha juventude, queríamos também nos fazer ouvidos, nos dopávamos para curtir, criar, desafiar os pais e dizer “alô estamos aqui, não somos bonecos”, não queremos ser iguais, somos diferentes! Afinal, éramos diferentes até entre nós mesmos. Usávamos estimulantes para nos manter o maior tempo possível acordados, pois dormir era um desperdício imenso de tempo! Tudo passando a nossa volta, várias idéias surgindo, e íamos perder tempo dormindo! Isso era absurdo! Talvez as drogas fossem uma forma de “abrir a mente” como dizem, parecia que as idéias surgiam com mais facilidade, falávamos “pega um papel aí, rápido, precisamos registrar isso!”. Hoje o que presencio é uma também loucura de juventude, mas com outro propósito, na verdade um propósito que não entendi muito bem. Não consigo conceber algo feito sem um propósito, mesmo que esse me parece o mais sem sentido possível. Nos anos 70 tínhamos os jovens usando drogas para protestar, nos anos 80 o processo criativo musical no Brasil cresceu no rock, com jovens que “fumavam um” pra relaxar e compor, infelizmente nos anos 2000 os jovens apenas querem sair da realidade pelo propósito de ...........não achei nenhum até agora. Bem, vou curar minha ressaca, porque ontem bebi bastante, mas com um propósito claro, me sentir viva, jovem e saber que ainda sou capaz de criar muita coisa.

Rio de Janeiro, 23 de abril de 2003.

Rio de Janeiro, 23 de abril de 2003. Vida, voltei!!! Nossa quanto tempo que não escrevo, nunca pensei que um dia isso fosse realmente voltar a acontecer! Eu, ficar nas nuvens e ao mesmo tempo numa fossa profunda por causa de um grande amor! (ou mais um grande amor) Mas a nossa sorte é que existe à noite entre os dias, e o tempo é a melhor arma para nos fazer esquecer e curar tudo que acontece em nossas vidas. E nada melhor que um grande sentimento para render grandes reflexões e grandes estórias. Vivi uma grande paixão e a perdi (o que normalmente acontece com grandes paixões) e isso me fez refletir sobre esses sentimentos de amor, posse, perda, perdão, rancor, dor, alegria, cumplicidade, ciúmes, enfim, tudo que passa pela nossa cabeça e pelo nosso coração.(Aliás, coração não é só uma metáfora quando falamos em amor, pois pode não ser exatamente o órgão em si, mas parece que existe alguma coisa que nos tira a razão e nos faz agir de forma diferente, e como nunca gostei de Kant, não acho que a razão seja absoluta.). Quando perdemos o que achamos ser uma grande paixão parece que só nos passa pela cabeça aquele sentimento de perda, de achar que não teremos mais aquilo que gostávamos de ter, aquela companhia, aquelas emoções. Mas porque não pensar também em quanto foi bom tudo que passamos no tempo em que estivemos perto da pessoa que nos fez renascer um sentimento tão único. Acho que a maior parte de nosso sofrimento vem de um ato voluntário que nós seres humanos temos de achar que devemos sofrer, pois assim estaremos valorizando o sofrimento. Mas nunca entendi o porque rimar amor com dor, e não com vigor, ardor... Bem existe também o lado egoísta que existe em todos nós, temos a necessidade de sermos egoístas, desde pequenos aprendemos que temos que pensar em nós, para que possamos vencer nesse mundo “cão” que nos espera lá fora. E com isso esquecemos de pensar que não vivemos sozinhos, que somos cercados de pessoas que também riem, sofrem, enfrentam dificuldades e tem o direito de escolher o que é melhor para eles. Agora penso que depois do sofrimento inicial, o quanto foi bom ter conhecido aquela pessoa, que sorte eu tive de ter aproveitado tantos momentos bons ao lado dela, e não sofrer por tê-la “perdido”. Porque ser tão egoísta, se não deu certo era porque aquela pessoa talvez não estivesse feliz ao nosso lado, e porque manter algo que não esta bom só pelo nosso conforto de nossa idéia de que não podemos perder. Hoje acho que realmente aprendi o que é amar, amo ver meu ex-amor feliz, amo vê-la rindo ao meu lado, e principalmente amo por ela não ter dado continuidade a algo que não estava bom e ter me dado à oportunidade de aproveitar somente os melhores momentos e o melhor que ela pode me dar.

Rio de Janeiro, 26 de outubro de 2002.

Rio de Janeiro, 26 de outubro de 2002. Nossa, como esse ano passou rápido! Nem percebi o tempo passar com tantas coisas acontecendo ao mesmo tempo! Mas nem sei mais se isso é bom ou ruim. Bem, quando era mais nova achava que era bom, porque assim ficava mais velha rápido e ninguém mais pegaria no meu pé, viraria “adulta”. Mas hoje em dia nem sei mais..se bem que depois de um tempo a vantagem da passagem dos anos é que não se fica mais velho e sim mais “experiente”, pelo menos é esse o único consolo que encontramos para gostar daqueles cabelos brancos... . Bem o dia hoje foi mais um para acrescentar nesse período de “mais experiência”. Fui visitar um amigo que sofreu um acidente e estava se recuperando no hospital. Como ele não tem plano de saúde acabou parando em um desses “maravilhosos” hospitais de nossa rede pública de saúde (bonito esse nome não?). Mas é a única coisa de bonita nesse universo de horror que encontrei lá. ( não é exagero!) Bem, existem pessoas que acham mais horror em um filme desses de terror, mas confesso que a realidade me aterroriza muito mais! Como sou meio curiosa, depois da visita a ele resolvi dar uma volta no hospital e o que vi foi uma estranha mistura de descaso, abandono, negligência, falta de caráter, pena, caridade, falsidade e desrespeito! Parece estranho, mas lá todos esses sentimentos aparentemente distintos se misturam de uma forma que jamais pensei que pudesse acontecer. Pacientes abandonados, sujos, sem atenção, o que incrivelmente me gerou uma sensação de revolta e pena, mas não pena deles, mas daquelas pessoas que deveria estar se esforçando para dar um atendimento ao menos digno aquelas pessoas. Mas ao mesmo tempo existiam enfermeiras e médicos que se esforçavam para atender a todos de uma maneira eficiente, mas podia se ver nos olhos deles o sentimento de impotência perante a falta de condições de trabalho que lhes era oferecida, o que parecia lhes gerar uma certa sensação de impotência diante da situação. Enquanto esses merecem reconhecimento ao menos pelo esforço de tentarem, existem outros que merecem verdadeira repugnação de minha parte, porque colaboram com todo esse sistema e falta de recursos e simplesmente não se importam com isso! Mas também existe a colaboração daqueles que estão melhores com aqueles que estão piores, me fazendo ainda acreditar que o ser humano tem salvação! Eles tentam amenizar a situação um do outro com uma palavra amiga ou com uma ajuda física mesmo. Mesmo com toda a negligência e abandono por parte dos maus profissionais, parecia-me que muitas daquelas pessoas já sabiam que só podiam contar umas com as outras e isso parecia mais essencial do que o tratamento que lhes deveria ser prestado pelos profissionais que disseram se formar para ajudar os outros, e quando estão negligenciando aquelas pessoas estão negligenciando aqueles que se esforçaram para pagar sua educação. Fico pensando naquele pai que se esforçou uma vida inteira para tentar dar a melhor educação possível ao seu filho, pois ele acha que nesse país é a única forma de se tentar ter uma vida um pouco mais digna. O pai que nunca pressionou o filho por essa ou aquela opção, e eles mesmo escolheram serem Médicos, Enfermeiros, enfim, se propuseram a ajudar aos outros. Mas muitos desses pensaram em um lindo Hospital particular, onde ganhariam um bom salário, teriam boas condições de trabalho. Mas isso é para poucos. Decidem então prestar um concurso, ter estabilidade, e se deparam com essa situação, será que todos aqueles sonhos e ideais deveriam ser esquecidos? Acho que para eles sim, e esses profissionais só merecem o meu repúdio e indignação. Lógico que existem bons profissionais, mas esses normalmente já sabem o que vão enfrentar, e exatamente por isso querem trabalhar nesses locais, para tentar melhorar e quem sabe trazer um pouco mais de conforto a essas pessoas. Esses merecem minha admiração e meu respeito. Meu repúdio também merecem aqueles pais que obrigam seus filhos a serem médicos, pois é uma carreira que dá futuro, querem ver um filho Doutor. Esses pais não sabem que além da infelicidade de seus filhos estão causando o desconforto de centenas de pessoas que estarão sendo tratadas por esses profissionais frustrados, e sem amor a profissão. Mais uma vez a intromissão na individualidade de cada um estará causando um imenso dano a sociedade!

sexta-feira, 8 de março de 2013

Rio de Janeiro, 3 de janeiro de 2002.

Rio de Janeiro, 3 de janeiro de 2002. Nossa, hoje o dia foi corrido, mas foi ótimo. A reunião com os meus amigos foi excelente, consegui esclarecer algumas questões e me revoltar com outras. O único inconveniente foi quando fomos todos almoçar e tinha um grupo de pessoas que olhavam diferente e faziam comentários quanto às pessoas ali presentes, o que realmente me deixa indignada, pois estávamos ali consumindo e nos portando como qualquer pessoa “normal”. Mas não era a normalidade deles, ou melhor, a que eles estão acostumados a ver. Pensei em algumas questões e concluí, depois do encontro, que todos os seres, não só nós seres humanos, nascem bissexuais, mas conforme vamos crescendo sofremos uma imposição que nos faz definir qual a sexualidade que adotaremos em nossas vidas.(inclusive Freud já falava sobre isso) Não me refiro apenas à imposição social, como constituir família, ter filhos, etc., mas a imposição de nós mesmos, que nos enxergamos como seres complementares, portanto o correto seria encontrarmos um par que nos complete. Biologicamente o homossexualismo seria um risco para a sobrevivência humana, pois não haveria como reproduzirmos. Isso seria um fato, se não houvesse aquela velha questão – nossa individualidade. Ou seja, nem todas as pessoas necessariamente têm que ser bi ou homossexual, contanto que essa escolha esteja baseada em uma opção individual, e não em uma pressão social ou moral. Todos nós somos seres que desenvolvemos sentimentos e atrações que se manifestam independente de nossa vontade, portanto poderíamos nos interessar por pessoas independente do sexo. Mas essa vontade nos é castrada desde cedo, pois embutem em nossas cabeças que isso é errado, mas ninguém nos responde se é certo reprimirmos um desejo que futuramente poderá nos causar algum tipo de frustração em outra área de nossas vidas. Isso poderá acarretar danos muito maiores do que simplesmente o de assumir uma preferência sexual que mais nos agrada. O contato físico com alguém sempre manifesta em nós algum tipo de reação, podendo esta reação ser de carinho, proteção, repulsa ou tesão. Mas quando sentimos atração ou tesão por pessoas do mesmo sexo, somos logo tomados por um impulso de transformar essa reação em repulsa, quando na verdade o que desejamos é o oposto. Quando digo que somos todos bissexuais, é que nem sempre “somos” homossexuais, às vezes, “estamos” homossexuais, ou seja, podemos sentir atração por uma pessoa do mesmo sexo por algum motivo especial. Sem que necessariamente precisemos sentir a mesma atração por outras pessoa. Assim como ocorre com pessoas do sexo oposto. Não é porque se é homem que deverá sentir atração por todas as mulheres que existem. Na verdade quando isso ocorre chegamos a nos insultar conosco, questionando como podemos estar indo contra toda a “lógica humana”. Ora, até hoje ninguém me mostrou um manual de instruções onde estivesse escrito que isso era proibido! Esse sentimento de repulsa acaba acarretando atos de desespero, como uma agressão ou total desprezo por pessoas homossexuais, talvez achando que longe desse tipo de pessoa não irá sofrer a “tentação” de achar que isso é correto, e correr o risco de se entregar à sedução. Nenhum de nos está livre de se sentir atraído por alguém do mesmo sexo, mas ao invés de tentar bloquear este sentimento, devemos encara-lo da forma mais natural possível para não corrermos o risco de cometermos atos de insanidade que terão conseqüências muito mais drásticas do que esse simples ato. Não precisamos definir uma sexualidade, afinal somos todos “seres sexuais”, mas sim deixarmos a nossa sexualidade livre para os sentimentos que vierem a surgir. Tentei ver todos os lados desta questão. Do lado biológico realmente deveríamos nos sentir atraídos pelo sexo oposto, pois como todo o animal temos instintos, e todas as fêmeas entram no cio, o que desencadeia uma reação no macho de procriar e na fêmea de ser fecundada. Bem isso seria lógico se quando analisássemos o mundo animal não constatássemos que também lá existem casos de homossexualismo. Como a ciência explica isso? Nem ela sabe, genética talvez. Mas já podemos chegar a uma conclusão, tanto do lado biológico como social, ninguém “escolhe” ser homo ou bissexual, não é uma “opção”, se não nenhuma mulher conseguiria se sentir atraída por outra quando estivesse “no cio”, ou um homem não conseguiria resistir a uma mulher quando ela estivesse nessa fase. Do lado social, nenhuma pessoa, a não ser que fosse masoquista gostaria de se sentir excluída da sociedade em que vive, nem ser discriminada, que é o que ocorre com as pessoas que não se integram na sociedade em que vivem. Podemos talvez dizer que essa opção seja mais formada pelo nosso “café com leite” do que propriamente com nossas influências sociais. Nenhum ser humano tem o direito de criticar ou oprimir o direito de outrem de se expressar, os valores morais embutidos na sociedade são de criação própria desses homens reprimidos e confusos consigo mesmos, o que não lhes dá muito crédito para decidir o que é correto ou não para a vida de um semelhante. Isso me lembra uma passagem do livro “Humano, demasiado Humano” do filósofo Nietzsche – “O homem é criador dos valores, mas esquece sua própria criação e vê neles algo de transcendente, eterno, verdadeiro, quando na verdade os valores não são mais do que humano, demasiado humano”.Ora, se os valores são criações humanas e todos os humanos cometem falhas, isto significa que os valores também podem ser falhos. Portanto isso me deixa a vontade para questiona-los e se quiser agir contra eles!

Rio de Janeiro, 2 de janeiro de 2002.

Rio de Janeiro, 2 de janeiro de 2002. Que bom, consegui acordar um pouco mais tarde hoje, tudo bem que com o telefone tocando desesperadamente, acordei assustada pensando que algo grave tivesse ocorrido, mas era apenas um amigo desesperado por uma conversa. Bom vou tomar um café e vou ao seu encontro. Cheguei ao local marcado e iniciamos um diálogo: Ele me diz: - Estou me sentindo muito mal! - Por que? – eu indago - Minha mulher arrumou um emprego e agora ganha mais do que eu! - Sim, e o que tem de mais? - Como o que tem de mais! Como pode a esposa ganhar mais do que o marido! Afinal a responsabilidade de sustentar a casa é minha! - Sei, mas porque vocês não podem dividir a responsabilidade, não vejo motivos para você se sentir tão mal. - Pois é, e além do mais ela agora inventou de ter um filho, diz que com o que nos ganhamos já podemos manter uma família. Mas não sei porque ter um filho agora e tirar completamente a nossa liberdade. - Olha, toda a mulher gosta de ter filhos, e acho que se vocês tem como mantê-lo não vejo problema em constituírem uma família. - Pois é, não entendo mesmo as mulheres, querem trabalhar, igualar os direitos com os homens, e quando conseguem querem logo ter um filho! Papo vai, papo vem, e depois de tentar acalma-lo em vão, -pois quando alguém está desse jeito, ele não quer ser convencido do contrário, gosta de ficar remoendo o assunto para se sentir certo do que diz, - voltei pra casa e algumas questões me vieram a cabeça. Uma delas diz respeito à sociedade paternalista em que vivemos, em que o homem é que tem a responsabilidade de manter e sustentar a família. Vejo que hoje isso está praticamente acabando, mas infelizmente ainda existem muitos núcleos familiares que se comportam dessa forma. Não quero transformar a sociedade, nem transforma-la em maternalista, mas apenas gostaria que cada família tivesse o direito de se comportar de acordo com suas possibilidades, tanto no aspecto financeiro quanto social e afetivo. Às vezes um homem se sente incomodado quando pensa não poder corresponder ao que a sociedade impõe a ele, mas ao invés de se sentir incomodado deveria tentar conviver e se readaptar ao modo como se impõe a vida para ele. Não digo se acomodar, mas apenas aceitar o fato de que tanto os homens quanto as mulheres possuem as mesmas capacidades de lidar com a vida, portanto não deveria se sentir diminuído. Pensei também na questão da maternidade, como a maternidade, de uma certa forma age como um meio de integração da mulher nessa sociedade paternalista. A relação que existe entra a mulher e a sociedade vem, desde os primórdios, intimamente ligada a procriação. Com a evolução das sociedades, as mulheres foram tomando importância maior dentro da comunidade, mas mesmo assim a vontade de ser mãe ainda estava presente dentro delas. Até mesmo com a revolução sexual a maternidade continuou sendo colocada como ponto referencial – começaram a surgir as mães solteiras. De uma certa forma, o fato de ter um filho faz com que a mulher se veja mais integrada a sociedade, ela parece que se sente mais aceita e mais respeitada por ter feito a única coisa que os homens não podem fazer. Existe também a cobrança da família e de outras mulheres, sempre perguntam “mas você ainda não tem filhos, porque?”, “olha já está na época de você ter um filho, hein?”, “olha o meu filho, não é lindo. E você quando vai ter o seu?”. Como se não ter um filho fosse algo inadmissível para uma mulher. Um dia ela vai ter que ter, não importa quando, e esses tipos de cobrança não são feitos aos homens. Esta questão pode ser vista claramente com o surgimento dos contraceptivos, poucas são as mulheres que antes de terem pelo menos um filho procuram um método definitivo. Com a aceitação de que as mulheres também podiam ter um relacionamento sexual só pelo prazer, o que ocorreu foi o fato de que agora elas podem decidir qual é o momento ideal para ter um filho. Isso não significa que ela não irá tê-lo. Hoje até mesmo casais homossexuais, ou mulheres solteiras, recorrem ao método de inseminação ou encontram um homem disposto apenas a engravida-las, pelo desejo de ser mãe. Este sentimento de integração vem de certa forma dessa sociedade paternalista em que vivemos, a família, os pais, os amigos, passam a enxergar a mulher de uma forma diferente após a maternidade. E as mulheres passam a se sentir um pouco mais “importantes” dessa forma. No mundo animal, as fêmeas são tratadas de uma forma diferente pelos machos no período de procriação, mas a diferença é que como animais racionais, as mulheres têm outras formas de se integrar a sociedade. Um bom exemplo é o trabalho. As mulheres podem ser mais bem sucedidas também nesta questão, a diferença é que elas encaram isso como uma competição onde pode haver dois vencedores. Já na gravidez ela é a única vencedora, sem precisar competir com ninguém. O tempo pode passar, as sociedades podem mudar, mas a vontade de ser mãe é uma coisa que jamais deixará de existir nas mulheres, mesmo essa vontade sendo encarada de várias formas diferentes. Nossa! Já são 23:00, amanhã tenho um dia cheio, combinei com amigos de irmos a um encontro GLS. Isso vai ser bom para eles e para mim, pois conviver com as diferenças é o que nos faz entender realmente o que somos. Vou dormir, quero estar bem disposta para poder ouvir e esclarecer certas questões que povoam um mundo que está tão próximo, mas a sociedade o impõe tão distante.

Rio de Janeiro, 10 de janeiro de 2002.

Rio de Janeiro, 1 de janeiro de 2002. Bom dia! Nem acredito que estou acordando às 7 horas! É uma droga esse verão, nem com ar condicionado consegue-se dormir! Bem já que acordei mesmo vou tomar meu café e dar uma caminhada na praia. Café com leite é bom pra acordar, mas sabe que agora reparei uma coisa interessante, todos nós somos parecidos com o café com leite (comparação estranha, não!), mas é verdade! Se formos pensar bem, somos todos misturas de genes de nossos pais e de nossas mães (que são misturas genéticas de nossos avós e por aí em diante, ou seja, vários cafés com leite já se passaram até aqui!). Podemos então chegar ao raciocínio lógico de que não somos um, mas várias partes de um todo, que se misturaram através de gerações.(Que ótimo, as 7:30hs acabo de descobrir que eu não sou eu!). Mas para não enlouquecer tão cedo posso acreditar que tanto social quanto geneticamente sou uma pessoa única, pois ninguém carrega a mesma carga genética que a minha, menos os gêmeos, mas isso é outro detalhe. Que bom, descobri que eu sou eu mesma, ou seja, voltei a ser um ser individual, e não mais uma mistura de vários cafés com leite! (Isso me conforta). Ufa, vou caminhar! Agora andando observo o calçadão cheio de pessoas com suas famílias, uma diferente da outra, e fico imaginando aqueles seres que são únicos inseridos em um ambiente familiar distinto um do outro, como será que isso influencia no comportamento individual de cada um? Mesmo tendo chegado a fantástica descoberta de que sou um ser individual, tenho que aceitar que a minha personalidade é formada também pelo meio familiar em que fui criada, e não só pela minha carga genética. Ou seja, sou uma mistura de ações e reações familiares que influenciaram no meu desenvolvimento, assim como influenciam no desenvolvimento daquelas crianças que agora brincam com seus pais na praia. (Que ótimo, começo a questionar novamente a minha individualidade!). Mas como ser influenciado pelo ambiente familiar se este também é formado por pessoas que foram influenciadas por ambientes diferentes e, portanto tem comportamentos diferentes? Como isso influencia na minha opção religiosa, na minha concepção moral, no meu comportamento nos estudos, no trabalho e no relacionamento com as pessoas? Posso tentar argumentar e dizer que “puxei mais ao meu pai” ou a minha mãe, mas isso me faria voltar a questão da genética e não é isso que está em questão para mim agora. Um dos pontos que me conforta é que até certo ponto somos realmente influenciados pelo comportamento de nossas famílias, mas como também raciocinamos temos o direito de questionar aquilo quando com mais idade, e daí formar o nosso próprio pensamento, para depois influenciarmos nossos filhos. Isso é o que uma pessoa comum pensaria, não eu, não acho ético influenciar ninguém, mesmo meus filhos, e sim deixar com que eles formem sua própria opinião sobre si mesmos, e não sobre o mundo, isso ele só poderá fazer depois de se descobrir como ser individual encaixado nele. Mas às vezes mesmo que não queiramos influenciar nossos filhos, nossos irmãos mais novos, eles procuram se espelhar em nós, como ídolos ou como modelos de imperfeição. E como evitar isso? Será que devemos evitar mesmo que isso aconteça? Se fizermos algo de errado, e soubermos que estamos errados, e nossos filhos se espelham em nós o que devemos dizer? “Não faça isso porque é errado, ou tudo bem faça, mas depois não venha dizer que se arrependeu!” Não penso que seja assim, acho que se percebemos que alguém se espelha em nós devemos conversar e argumentar com essa pessoa, saber o porque que ela gosta do que gostamos ou não gosta, bota-la diante de seu senso crítico, ensina-la a argumentar, e quem sabe até faze-la te convencer de que estamos errados. Hoje em dia nossas crianças estão perdendo o senso crítico das coisas, estão sendo transformadas em robôs, máquinas, que não sabem questionar, replicar, debater, pois os pais e os professores não admitem serem contrariados, pois acreditam saber mais. Não acho que esteja correto. Se o seu filho te questiona alguma atitude, acho que deveríamos ao invés de dizer “faça isso porque eu sou teu pai, sou mais velho e estou mandando!”, deveríamos tentar convence-lo de porque estamos certos. Mas penso que alguns pais não fazem isso, porque nem eles mesmos sabem porque pensam daquela forma, e aprenderam que os mais velhos devem mandar e os mais novos não questionar, assim como os seus pais e professores fizeram com eles, e então criam adultos que quando mais velhos farão igual a eles, e isso vira um ciclo interminável! Engraçado, fico pensando que escolhi uma religião diferente da de minha família. Isso poderia ser um bom argumento para dizer que não fui influenciada por eles, mas pelo contrário, talvez por não concordar com a religião que me foi mostrada tenha optado por outra. Mas por isso é que penso que primeiro reconheci a mim própria como ser individual, antes de tentar me encaixar dentro do mundo, pois aí posso realmente dizer que todas as opções feitas por mim não foram influenciadas e sim uma opção própria em que procurei optar por algo que me satisfizesse, e não ao meu próximo só para agrada-lo, ou só para me ver inserida em um meio. Bom, acho que vou almoçar por aqui mesmo, estou com preguiça de cozinhar! Interessante, na mesa ao lado um pai briga com a criança por ela derrubar comida na mesa, e isso me faz pensar que também somos influenciados pelo comportamento social, devemos sempre nos comportar como tradicionalmente se comporta nossa sociedade. Mas que merda! Será que nunca temos o direito de sermos individuais, seremos sempre cafés com leite inseridos dentro de um café da manhã! Fico pensando, em minha sociedade, não é correto ser homossexual, ser bígamo, ser gorda, enfim, essas coisas que gostam de inventar para transformar nossa vida mais complexa. Mas na Roma antiga era normal ser homossexual; em certas tribos o normal é ser bígamo e em certas sociedades só as gordas casam. Ora então porque tantas proibições!!! Tudo para sermos obrigados a reprimir nossa individualidade! Conceitualmente uma sociedade precisa de regras para existir, mas o que me impressiona é que os que ditam essas regras não explicam a razão dela existir, até agora não me demonstraram nenhum motivo concreto para eu ter que obedece-la. Até porque somos animais e temos instintos que devem ser seguidos, mas que nos são castrados “em prol da boa convivência”. Boa convivência uma ova!!!!! Como posso conviver bem com alguém se vivo me reprimindo, sendo um ser frustrado comigo mesmo, impossível!!!!! Concordo quando dizem que não é moralmente aceito quando alguém assalta outra para comer, mas também não acho aceitável e nem moral deixar alguém passar fome a ponto de roubar. Que sociedade hipócrita, não se deixa ser julgada e se julga no direito de julgar! Isso sim amoral!!! Volto a minha questão da individualidade. Não prego uma sociedade definida, mas uma sociedade em que cada um tenha o direito de expressar a sua individualidade, e se cada um tiver os seus direitos básicos preservados não precisaremos impor regras, pois cada um possui sua própria verdade e aprenderá a lidar com a diferença dos outros. Mas isso iria dificultar a manipulação social que se impõe hoje em dia. Mas que merda! Minha individualidade deve ser respeitada, não quero passar o resto da vida achando que sou apenas uma peça de um quebra-cabeça, pois sou um quebra cabeça inteiro, cheio de questões, opiniões e verdades que unidas tornam-se uma única peça. Isso não é o suficiente, preciso ainda me impor limites para saber como me encaixar nessa galeria? Não, não vou me enervar com isso, vou continuar a minha caminhada... Nossa! Mais um pregador pelo caminho, olha só eu me integrando a sociedade! Ele tem o direito de pregar! Pregar a existência de um Deus que ele acredita, e eu não devo critica-lo! Isso me faz pensar na existência de um poder superior, se não vemos o vento, mas sabemos que ele existe, porque não acreditar em um outro poder que também não podemos visualizar? Não digo esse Deus manipulador que é usado pelas nossas belas igrejas para mais uma vez tirar-nos o direito de sermos individuais, mas um Deus individual para cada um de nós. Conheço pessoas que deixaram de acreditar em Deus porque pediram socorro a ele e ele não atendeu prontamente, por isso chegaram a conclusão de que ele não existia. Mas isso não faz sentido! Não tiro o direito individual de desacreditar em um Deus qualquer, mas questiono ESSA razão. Seria o mesmo que uma criança que pede um brinquedo de natal a papai Noel e o pai naquele ano não pode comprar. Como a criança não é prontamente atendida ela passa a desacreditar em papai Noel. Ora, mas papai Noel existe! É nossa família, ela só não pode nos atender prontamente a ora em que quisermos, mas isso não significa que ela não exista. Assim como Deus, ele pode não ser como todos pregam, cada um tem uma idéia dele (assim como cada um tem uma família!), mas não devemos renega-lo só porque ele não nos atendeu prontamente. Imagine se eu deixar de acreditar que meu pai existe só porque ele não pode me dar um carro! Isso não faz sentido! Mas como tudo, temos que incluir Deus nesse conceito social, e, portanto não se admite em nossa sociedade um Deus diferente. Mas uma vez me querem me tirar o direito de ser única! Nossa, estou cansada, já são 20hs, ta na hora de dormir, ou melhor, tentar, pois com esse calor é impossível!