sexta-feira, 8 de março de 2013

Rio de Janeiro, 2 de janeiro de 2002.

Rio de Janeiro, 2 de janeiro de 2002. Que bom, consegui acordar um pouco mais tarde hoje, tudo bem que com o telefone tocando desesperadamente, acordei assustada pensando que algo grave tivesse ocorrido, mas era apenas um amigo desesperado por uma conversa. Bom vou tomar um café e vou ao seu encontro. Cheguei ao local marcado e iniciamos um diálogo: Ele me diz: - Estou me sentindo muito mal! - Por que? – eu indago - Minha mulher arrumou um emprego e agora ganha mais do que eu! - Sim, e o que tem de mais? - Como o que tem de mais! Como pode a esposa ganhar mais do que o marido! Afinal a responsabilidade de sustentar a casa é minha! - Sei, mas porque vocês não podem dividir a responsabilidade, não vejo motivos para você se sentir tão mal. - Pois é, e além do mais ela agora inventou de ter um filho, diz que com o que nos ganhamos já podemos manter uma família. Mas não sei porque ter um filho agora e tirar completamente a nossa liberdade. - Olha, toda a mulher gosta de ter filhos, e acho que se vocês tem como mantê-lo não vejo problema em constituírem uma família. - Pois é, não entendo mesmo as mulheres, querem trabalhar, igualar os direitos com os homens, e quando conseguem querem logo ter um filho! Papo vai, papo vem, e depois de tentar acalma-lo em vão, -pois quando alguém está desse jeito, ele não quer ser convencido do contrário, gosta de ficar remoendo o assunto para se sentir certo do que diz, - voltei pra casa e algumas questões me vieram a cabeça. Uma delas diz respeito à sociedade paternalista em que vivemos, em que o homem é que tem a responsabilidade de manter e sustentar a família. Vejo que hoje isso está praticamente acabando, mas infelizmente ainda existem muitos núcleos familiares que se comportam dessa forma. Não quero transformar a sociedade, nem transforma-la em maternalista, mas apenas gostaria que cada família tivesse o direito de se comportar de acordo com suas possibilidades, tanto no aspecto financeiro quanto social e afetivo. Às vezes um homem se sente incomodado quando pensa não poder corresponder ao que a sociedade impõe a ele, mas ao invés de se sentir incomodado deveria tentar conviver e se readaptar ao modo como se impõe a vida para ele. Não digo se acomodar, mas apenas aceitar o fato de que tanto os homens quanto as mulheres possuem as mesmas capacidades de lidar com a vida, portanto não deveria se sentir diminuído. Pensei também na questão da maternidade, como a maternidade, de uma certa forma age como um meio de integração da mulher nessa sociedade paternalista. A relação que existe entra a mulher e a sociedade vem, desde os primórdios, intimamente ligada a procriação. Com a evolução das sociedades, as mulheres foram tomando importância maior dentro da comunidade, mas mesmo assim a vontade de ser mãe ainda estava presente dentro delas. Até mesmo com a revolução sexual a maternidade continuou sendo colocada como ponto referencial – começaram a surgir as mães solteiras. De uma certa forma, o fato de ter um filho faz com que a mulher se veja mais integrada a sociedade, ela parece que se sente mais aceita e mais respeitada por ter feito a única coisa que os homens não podem fazer. Existe também a cobrança da família e de outras mulheres, sempre perguntam “mas você ainda não tem filhos, porque?”, “olha já está na época de você ter um filho, hein?”, “olha o meu filho, não é lindo. E você quando vai ter o seu?”. Como se não ter um filho fosse algo inadmissível para uma mulher. Um dia ela vai ter que ter, não importa quando, e esses tipos de cobrança não são feitos aos homens. Esta questão pode ser vista claramente com o surgimento dos contraceptivos, poucas são as mulheres que antes de terem pelo menos um filho procuram um método definitivo. Com a aceitação de que as mulheres também podiam ter um relacionamento sexual só pelo prazer, o que ocorreu foi o fato de que agora elas podem decidir qual é o momento ideal para ter um filho. Isso não significa que ela não irá tê-lo. Hoje até mesmo casais homossexuais, ou mulheres solteiras, recorrem ao método de inseminação ou encontram um homem disposto apenas a engravida-las, pelo desejo de ser mãe. Este sentimento de integração vem de certa forma dessa sociedade paternalista em que vivemos, a família, os pais, os amigos, passam a enxergar a mulher de uma forma diferente após a maternidade. E as mulheres passam a se sentir um pouco mais “importantes” dessa forma. No mundo animal, as fêmeas são tratadas de uma forma diferente pelos machos no período de procriação, mas a diferença é que como animais racionais, as mulheres têm outras formas de se integrar a sociedade. Um bom exemplo é o trabalho. As mulheres podem ser mais bem sucedidas também nesta questão, a diferença é que elas encaram isso como uma competição onde pode haver dois vencedores. Já na gravidez ela é a única vencedora, sem precisar competir com ninguém. O tempo pode passar, as sociedades podem mudar, mas a vontade de ser mãe é uma coisa que jamais deixará de existir nas mulheres, mesmo essa vontade sendo encarada de várias formas diferentes. Nossa! Já são 23:00, amanhã tenho um dia cheio, combinei com amigos de irmos a um encontro GLS. Isso vai ser bom para eles e para mim, pois conviver com as diferenças é o que nos faz entender realmente o que somos. Vou dormir, quero estar bem disposta para poder ouvir e esclarecer certas questões que povoam um mundo que está tão próximo, mas a sociedade o impõe tão distante.

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