sábado, 9 de março de 2013

Rio de Janeiro, 26 de outubro de 2002.

Rio de Janeiro, 26 de outubro de 2002. Nossa, como esse ano passou rápido! Nem percebi o tempo passar com tantas coisas acontecendo ao mesmo tempo! Mas nem sei mais se isso é bom ou ruim. Bem, quando era mais nova achava que era bom, porque assim ficava mais velha rápido e ninguém mais pegaria no meu pé, viraria “adulta”. Mas hoje em dia nem sei mais..se bem que depois de um tempo a vantagem da passagem dos anos é que não se fica mais velho e sim mais “experiente”, pelo menos é esse o único consolo que encontramos para gostar daqueles cabelos brancos... . Bem o dia hoje foi mais um para acrescentar nesse período de “mais experiência”. Fui visitar um amigo que sofreu um acidente e estava se recuperando no hospital. Como ele não tem plano de saúde acabou parando em um desses “maravilhosos” hospitais de nossa rede pública de saúde (bonito esse nome não?). Mas é a única coisa de bonita nesse universo de horror que encontrei lá. ( não é exagero!) Bem, existem pessoas que acham mais horror em um filme desses de terror, mas confesso que a realidade me aterroriza muito mais! Como sou meio curiosa, depois da visita a ele resolvi dar uma volta no hospital e o que vi foi uma estranha mistura de descaso, abandono, negligência, falta de caráter, pena, caridade, falsidade e desrespeito! Parece estranho, mas lá todos esses sentimentos aparentemente distintos se misturam de uma forma que jamais pensei que pudesse acontecer. Pacientes abandonados, sujos, sem atenção, o que incrivelmente me gerou uma sensação de revolta e pena, mas não pena deles, mas daquelas pessoas que deveria estar se esforçando para dar um atendimento ao menos digno aquelas pessoas. Mas ao mesmo tempo existiam enfermeiras e médicos que se esforçavam para atender a todos de uma maneira eficiente, mas podia se ver nos olhos deles o sentimento de impotência perante a falta de condições de trabalho que lhes era oferecida, o que parecia lhes gerar uma certa sensação de impotência diante da situação. Enquanto esses merecem reconhecimento ao menos pelo esforço de tentarem, existem outros que merecem verdadeira repugnação de minha parte, porque colaboram com todo esse sistema e falta de recursos e simplesmente não se importam com isso! Mas também existe a colaboração daqueles que estão melhores com aqueles que estão piores, me fazendo ainda acreditar que o ser humano tem salvação! Eles tentam amenizar a situação um do outro com uma palavra amiga ou com uma ajuda física mesmo. Mesmo com toda a negligência e abandono por parte dos maus profissionais, parecia-me que muitas daquelas pessoas já sabiam que só podiam contar umas com as outras e isso parecia mais essencial do que o tratamento que lhes deveria ser prestado pelos profissionais que disseram se formar para ajudar os outros, e quando estão negligenciando aquelas pessoas estão negligenciando aqueles que se esforçaram para pagar sua educação. Fico pensando naquele pai que se esforçou uma vida inteira para tentar dar a melhor educação possível ao seu filho, pois ele acha que nesse país é a única forma de se tentar ter uma vida um pouco mais digna. O pai que nunca pressionou o filho por essa ou aquela opção, e eles mesmo escolheram serem Médicos, Enfermeiros, enfim, se propuseram a ajudar aos outros. Mas muitos desses pensaram em um lindo Hospital particular, onde ganhariam um bom salário, teriam boas condições de trabalho. Mas isso é para poucos. Decidem então prestar um concurso, ter estabilidade, e se deparam com essa situação, será que todos aqueles sonhos e ideais deveriam ser esquecidos? Acho que para eles sim, e esses profissionais só merecem o meu repúdio e indignação. Lógico que existem bons profissionais, mas esses normalmente já sabem o que vão enfrentar, e exatamente por isso querem trabalhar nesses locais, para tentar melhorar e quem sabe trazer um pouco mais de conforto a essas pessoas. Esses merecem minha admiração e meu respeito. Meu repúdio também merecem aqueles pais que obrigam seus filhos a serem médicos, pois é uma carreira que dá futuro, querem ver um filho Doutor. Esses pais não sabem que além da infelicidade de seus filhos estão causando o desconforto de centenas de pessoas que estarão sendo tratadas por esses profissionais frustrados, e sem amor a profissão. Mais uma vez a intromissão na individualidade de cada um estará causando um imenso dano a sociedade!

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