sexta-feira, 8 de março de 2013

Rio de Janeiro, 10 de janeiro de 2002.

Rio de Janeiro, 1 de janeiro de 2002. Bom dia! Nem acredito que estou acordando às 7 horas! É uma droga esse verão, nem com ar condicionado consegue-se dormir! Bem já que acordei mesmo vou tomar meu café e dar uma caminhada na praia. Café com leite é bom pra acordar, mas sabe que agora reparei uma coisa interessante, todos nós somos parecidos com o café com leite (comparação estranha, não!), mas é verdade! Se formos pensar bem, somos todos misturas de genes de nossos pais e de nossas mães (que são misturas genéticas de nossos avós e por aí em diante, ou seja, vários cafés com leite já se passaram até aqui!). Podemos então chegar ao raciocínio lógico de que não somos um, mas várias partes de um todo, que se misturaram através de gerações.(Que ótimo, as 7:30hs acabo de descobrir que eu não sou eu!). Mas para não enlouquecer tão cedo posso acreditar que tanto social quanto geneticamente sou uma pessoa única, pois ninguém carrega a mesma carga genética que a minha, menos os gêmeos, mas isso é outro detalhe. Que bom, descobri que eu sou eu mesma, ou seja, voltei a ser um ser individual, e não mais uma mistura de vários cafés com leite! (Isso me conforta). Ufa, vou caminhar! Agora andando observo o calçadão cheio de pessoas com suas famílias, uma diferente da outra, e fico imaginando aqueles seres que são únicos inseridos em um ambiente familiar distinto um do outro, como será que isso influencia no comportamento individual de cada um? Mesmo tendo chegado a fantástica descoberta de que sou um ser individual, tenho que aceitar que a minha personalidade é formada também pelo meio familiar em que fui criada, e não só pela minha carga genética. Ou seja, sou uma mistura de ações e reações familiares que influenciaram no meu desenvolvimento, assim como influenciam no desenvolvimento daquelas crianças que agora brincam com seus pais na praia. (Que ótimo, começo a questionar novamente a minha individualidade!). Mas como ser influenciado pelo ambiente familiar se este também é formado por pessoas que foram influenciadas por ambientes diferentes e, portanto tem comportamentos diferentes? Como isso influencia na minha opção religiosa, na minha concepção moral, no meu comportamento nos estudos, no trabalho e no relacionamento com as pessoas? Posso tentar argumentar e dizer que “puxei mais ao meu pai” ou a minha mãe, mas isso me faria voltar a questão da genética e não é isso que está em questão para mim agora. Um dos pontos que me conforta é que até certo ponto somos realmente influenciados pelo comportamento de nossas famílias, mas como também raciocinamos temos o direito de questionar aquilo quando com mais idade, e daí formar o nosso próprio pensamento, para depois influenciarmos nossos filhos. Isso é o que uma pessoa comum pensaria, não eu, não acho ético influenciar ninguém, mesmo meus filhos, e sim deixar com que eles formem sua própria opinião sobre si mesmos, e não sobre o mundo, isso ele só poderá fazer depois de se descobrir como ser individual encaixado nele. Mas às vezes mesmo que não queiramos influenciar nossos filhos, nossos irmãos mais novos, eles procuram se espelhar em nós, como ídolos ou como modelos de imperfeição. E como evitar isso? Será que devemos evitar mesmo que isso aconteça? Se fizermos algo de errado, e soubermos que estamos errados, e nossos filhos se espelham em nós o que devemos dizer? “Não faça isso porque é errado, ou tudo bem faça, mas depois não venha dizer que se arrependeu!” Não penso que seja assim, acho que se percebemos que alguém se espelha em nós devemos conversar e argumentar com essa pessoa, saber o porque que ela gosta do que gostamos ou não gosta, bota-la diante de seu senso crítico, ensina-la a argumentar, e quem sabe até faze-la te convencer de que estamos errados. Hoje em dia nossas crianças estão perdendo o senso crítico das coisas, estão sendo transformadas em robôs, máquinas, que não sabem questionar, replicar, debater, pois os pais e os professores não admitem serem contrariados, pois acreditam saber mais. Não acho que esteja correto. Se o seu filho te questiona alguma atitude, acho que deveríamos ao invés de dizer “faça isso porque eu sou teu pai, sou mais velho e estou mandando!”, deveríamos tentar convence-lo de porque estamos certos. Mas penso que alguns pais não fazem isso, porque nem eles mesmos sabem porque pensam daquela forma, e aprenderam que os mais velhos devem mandar e os mais novos não questionar, assim como os seus pais e professores fizeram com eles, e então criam adultos que quando mais velhos farão igual a eles, e isso vira um ciclo interminável! Engraçado, fico pensando que escolhi uma religião diferente da de minha família. Isso poderia ser um bom argumento para dizer que não fui influenciada por eles, mas pelo contrário, talvez por não concordar com a religião que me foi mostrada tenha optado por outra. Mas por isso é que penso que primeiro reconheci a mim própria como ser individual, antes de tentar me encaixar dentro do mundo, pois aí posso realmente dizer que todas as opções feitas por mim não foram influenciadas e sim uma opção própria em que procurei optar por algo que me satisfizesse, e não ao meu próximo só para agrada-lo, ou só para me ver inserida em um meio. Bom, acho que vou almoçar por aqui mesmo, estou com preguiça de cozinhar! Interessante, na mesa ao lado um pai briga com a criança por ela derrubar comida na mesa, e isso me faz pensar que também somos influenciados pelo comportamento social, devemos sempre nos comportar como tradicionalmente se comporta nossa sociedade. Mas que merda! Será que nunca temos o direito de sermos individuais, seremos sempre cafés com leite inseridos dentro de um café da manhã! Fico pensando, em minha sociedade, não é correto ser homossexual, ser bígamo, ser gorda, enfim, essas coisas que gostam de inventar para transformar nossa vida mais complexa. Mas na Roma antiga era normal ser homossexual; em certas tribos o normal é ser bígamo e em certas sociedades só as gordas casam. Ora então porque tantas proibições!!! Tudo para sermos obrigados a reprimir nossa individualidade! Conceitualmente uma sociedade precisa de regras para existir, mas o que me impressiona é que os que ditam essas regras não explicam a razão dela existir, até agora não me demonstraram nenhum motivo concreto para eu ter que obedece-la. Até porque somos animais e temos instintos que devem ser seguidos, mas que nos são castrados “em prol da boa convivência”. Boa convivência uma ova!!!!! Como posso conviver bem com alguém se vivo me reprimindo, sendo um ser frustrado comigo mesmo, impossível!!!!! Concordo quando dizem que não é moralmente aceito quando alguém assalta outra para comer, mas também não acho aceitável e nem moral deixar alguém passar fome a ponto de roubar. Que sociedade hipócrita, não se deixa ser julgada e se julga no direito de julgar! Isso sim amoral!!! Volto a minha questão da individualidade. Não prego uma sociedade definida, mas uma sociedade em que cada um tenha o direito de expressar a sua individualidade, e se cada um tiver os seus direitos básicos preservados não precisaremos impor regras, pois cada um possui sua própria verdade e aprenderá a lidar com a diferença dos outros. Mas isso iria dificultar a manipulação social que se impõe hoje em dia. Mas que merda! Minha individualidade deve ser respeitada, não quero passar o resto da vida achando que sou apenas uma peça de um quebra-cabeça, pois sou um quebra cabeça inteiro, cheio de questões, opiniões e verdades que unidas tornam-se uma única peça. Isso não é o suficiente, preciso ainda me impor limites para saber como me encaixar nessa galeria? Não, não vou me enervar com isso, vou continuar a minha caminhada... Nossa! Mais um pregador pelo caminho, olha só eu me integrando a sociedade! Ele tem o direito de pregar! Pregar a existência de um Deus que ele acredita, e eu não devo critica-lo! Isso me faz pensar na existência de um poder superior, se não vemos o vento, mas sabemos que ele existe, porque não acreditar em um outro poder que também não podemos visualizar? Não digo esse Deus manipulador que é usado pelas nossas belas igrejas para mais uma vez tirar-nos o direito de sermos individuais, mas um Deus individual para cada um de nós. Conheço pessoas que deixaram de acreditar em Deus porque pediram socorro a ele e ele não atendeu prontamente, por isso chegaram a conclusão de que ele não existia. Mas isso não faz sentido! Não tiro o direito individual de desacreditar em um Deus qualquer, mas questiono ESSA razão. Seria o mesmo que uma criança que pede um brinquedo de natal a papai Noel e o pai naquele ano não pode comprar. Como a criança não é prontamente atendida ela passa a desacreditar em papai Noel. Ora, mas papai Noel existe! É nossa família, ela só não pode nos atender prontamente a ora em que quisermos, mas isso não significa que ela não exista. Assim como Deus, ele pode não ser como todos pregam, cada um tem uma idéia dele (assim como cada um tem uma família!), mas não devemos renega-lo só porque ele não nos atendeu prontamente. Imagine se eu deixar de acreditar que meu pai existe só porque ele não pode me dar um carro! Isso não faz sentido! Mas como tudo, temos que incluir Deus nesse conceito social, e, portanto não se admite em nossa sociedade um Deus diferente. Mas uma vez me querem me tirar o direito de ser única! Nossa, estou cansada, já são 20hs, ta na hora de dormir, ou melhor, tentar, pois com esse calor é impossível!

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